Mato Grosso do Sul, 8 de maio de 2026

Redução da jornada de trabalho divide empresários e pesquisadores

Confederações preveem alta na inflação; Ipea projeta mais empregos

A proposta de redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1 no Brasil geraram um impasse técnico e político entre entidades patronais e órgãos de pesquisa. Enquanto confederações empresariais alertam para o risco de retração no Produto Interno Bruto (PIB) e pressão inflacionária, analistas do Ipea e da Unicamp defendem que a medida pode estimular a criação de empregos e o crescimento econômico com impactos marginais nos preços.

Divergência nas projeções econômicas

O debate central gira em torno do custo real da mudança para as empresas. Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a redução da jornada de 44 para 40 horas semanais pode gerar uma perda de R$ 76 bilhões no PIB brasileiro (-0,7%). Já a Confederação Nacional do Comércio (CNC) estima um aumento de 21% nos custos da folha salarial, com repasse de até 13% nos preços ao consumidor.

Em contrapartida, o estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) contesta esses números. O instituto calcula que o aumento médio no custo total das empresas seria de apenas 1% na maioria dos setores, chegando a no máximo 6,6% em áreas específicas, como vigilância.

“Matematicamente, não tem como esse aumento ser maior do que 10% [no custo do trabalho], porque é exatamente o tempo de horas que o empregador vai perder”, afirma Felipe Pateo, um dos autores do estudo do Ipea.

Produtividade e consumo

A resistência do setor produtivo baseia-se na tese de que a produtividade brasileira está estagnada, dificultando a absorção de novos custos. No entanto, a economista da Unicamp Marilane Teixeira argumenta que a redução pode ter efeito contrário: trabalhadores menos exaustos tendem a produzir mais e o aumento do tempo livre pode dinamizar o setor de serviços e consumo.

Precedente histórico

Pesquisadores relembram que a transição de 48 para 44 horas semanais, ocorrida com a Constituição de 1988, não resultou em aumento do desemprego ou crises inflacionárias, conforme apontam estudos da USP e PUC-Rio.

Para os especialistas favoráveis à mudança, a resistência atual é um “conflito distributivo” — uma disputa sobre como os ganhos de produtividade e os lucros devem ser repartidos entre capital e trabalho no país.

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