Tia Eva é o primeiro quilombo patrimônio cultural do Brasil

O governo federal oficializou a inclusão da Comunidade Tia Eva, em Campo Grande (MS), no Livro de Tombo de Documentos e Sítios Detentores de Reminiscências Históricas de Antigos Quilombos. A medida, publicada no Diário Oficial da União desta segunda-feira (25), torna o local o primeiro quilombo reconhecido oficialmente como patrimônio cultural do Brasil dentro da nova categoria de proteção do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
A inscrição histórica foi realizada no dia 13 de maio, data que marca a Abolição da Escravatura no país. Com este ato, a Comunidade Remanescente de Quilombo Tia Eva passa a ocupar a inscrição de número 1 do novo livro patrimonial, estruturado para salvaguardar e valorizar os espaços de memória e resistência da população negra brasileira.
Origem e a força de Eva Maria de Jesus
O território começou a ganhar forma no início do século passado. Em 1905, a ex-escravizada e benzedeira Eva Maria de Jesus, conhecida popularmente como Tia Eva, chegou à região da Vila São Benedito acompanhada de seus familiares. Nascida em Goiás, ela conquistou sua alforria e buscou um novo recomeço nas terras do antigo Mato Grosso, estabelecendo-se em uma área de mata próxima ao Córrego Segredo.
Determinada a cumprir uma promessa religiosa, Tia Eva liderou a comunidade na construção da Igreja São Benedito. O pequeno templo, inicialmente erguido em madeira e reconstruído em alvenaria em 1919, tornou-se o coração da comunidade e um dos monumentos mais antigos da capital. Devido à sua imensa relevância cultural, o santuário já contava com tombamentos nas esferas municipal e estadual.
Impacto e preservação da memória
A chancela em nível federal consolida a proteção legal de toda a área e atende a diretrizes de reparação histórica previstas na Constituição Federal. O reconhecimento não apenas blinda o patrimônio físico, mas também impulsiona o desenvolvimento de políticas públicas voltadas à preservação das tradições e saberes quilombolas de Mato Grosso do Sul.
Legado vivo: Atualmente, centenas de descendentes de Tia Eva residem no território urbano, mantendo vivas as celebrações tradicionais, como a centenária Festa de São Benedito, que movimenta a cultura e o turismo religioso local.
A consolidação do laudo técnico e antropológico pelo Iphan transforma a comunidade em uma referência nacional, abrindo caminho para que outros territórios quilombolas do país recebam o mesmo reconhecimento e salvaguarda jurídica nos próximos anos.



