Mato Grosso do Sul, 18 de outubro de 2026

Sem reajuste real de benefícios, renda do interior pode cair até 10,8%, diz USP

Benefícios sociais sustentam renda e comércio das cidades do interior

A estagnação ou o corte no valor dos benefícios sociais e previdenciários pode provocar retração severa da atividade econômica nos municípios do interior do Brasil. A conclusão é de um levantamento do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), divulgado nesta semana.

Segundo o estudo, sem os reajustes reais, a renda agregada do interior ficaria entre 6,8% e 10,8% abaixo do patamar observado com a valorização dos benefícios. Para chegar a esse resultado, os pesquisadores compararam o período de 2022 a 2025, com ganhos reais para o BPC e as aposentadorias, ao de 2019 a 2022, marcado por reajustes sem aumento real do salário mínimo e por congelamento total.

O peso desses recursos explica o tamanho do impacto. De acordo com o levantamento, aposentadorias, Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada (BPC) chegam a representar quase metade do orçamento das famílias mais pobres. Dos 5.569 municípios brasileiros, cerca de 4 mil estão fora das regiões metropolitanas, e nessas cidades o peso das transferências públicas chega a ser o dobro do verificado nos grandes centros. No Ceará, por exemplo, os benefícios respondem por 22% da renda agregada da capital e de sua região metropolitana, mas por 40% no interior.

Para a co-diretora do Made-USP, a economista Luiza Nassif, o efeito vai além de quem recebe os benefícios. “Como o valor recebido por essas famílias é usado quase integralmente para a aquisição de itens de primeira necessidade, o dinheiro circula imediatamente no comércio local, garante empregos e mantém a arrecadação municipal ativa”, destaca. Por isso, avalia, a perda de renda “geraria uma reação em cadeia na atividade econômica que atinge inclusive as famílias que não dependem do socorro público”.

O impacto, porém, não seria igual em todo o país. Os cenários mais críticos estão no interior do Rio Grande do Norte, do Amapá e do Piauí, onde a renda total cairia entre 17% e 18%. No Amazonas, em Sergipe e em Pernambuco, a perda ficaria na casa dos 15%, e no Ceará, no Maranhão, em Alagoas e na Bahia, entre 10% e 13%. Em Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Espírito Santo, São Paulo, Mato Grosso, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, o prejuízo chegaria a 6,5%.

Além da renda, os benefícios têm papel decisivo no combate à pobreza. “Para quem vive no limite, qualquer reajuste abaixo da inflação empurra a família diretamente para a pobreza”, afirma Nassif. Segundo ela, para famílias com rendimento de até 1,5 salário mínimo per capita, os benefícios podem chegar a 50% do total recebido.

As simulações do estudo indicam que a ausência de ganhos reais entre 2022 e 2025 teria empurrado cerca de 2,7 milhões de pessoas para a pobreza nos municípios fora das regiões metropolitanas, 2,4 milhões delas para a extrema pobreza. Em números absolutos, os maiores aumentos ocorreriam na Bahia (até 336 mil pessoas a mais), em São Paulo (até 263 mil) e em Minas Gerais (até 251 mil), seguidos por Maranhão, Pará e Ceará, com mais de 200 mil cada.

Diante dos números, a economista defende a manutenção da política de valorização. “Olhando para o impacto que a queda de renda provoca, fica nítido o estrago que uma trava no crescimento dos benefícios pode fazer nas economias locais”, observa. “Manter a valorização real da previdência, do BPC e dos programas de transferência de renda é a garantia mínima de dignidade para as famílias e de sobrevivência para o comércio local no Brasil profundo”, acrescenta.

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