Alta do petróleo deve reduzir oferta de açúcar e elevar produção de etanol

A escalada nos preços internacionais do petróleo, impulsionada pelos conflitos no Oriente Médio, deve alterar a estratégia das usinas de cana-de-açúcar no Brasil para a temporada que se inicia nas próximas semanas. Analistas do setor preveem que os processadores darão prioridade à produção de etanol em detrimento do açúcar, buscando capturar os melhores retornos financeiros oferecidos pelo biocombustível.
O movimento já gera impactos no mercado global: os contratos futuros do açúcar bruto na bolsa de Nova York (ICE) saltaram mais de 3% nesta segunda-feira (9). A alta reflete o temor de uma oferta menor vinda do Centro-Sul do Brasil, a maior região produtora do mundo.
Flexibilidade das usinas e preços globais
As usinas brasileiras possuem flexibilidade técnica para ajustar o “mix” de produção. Segundo Arnaldo Correa, sócio-diretor da Archer Consulting, combustíveis fósseis mais caros tornam o etanol mais competitivo. “Em teoria, a situação atual deve reduzir a disponibilidade de açúcar no mercado e aumentar os preços globais”, explica o consultor.
A consultoria Datagro já projeta uma queda na destinação de cana para o açúcar, caindo de 50,7% na temporada passada para 48,5% na atual.
O fator Petrobras e a defasagem nos preços
Apesar do cenário favorável ao etanol, a decisão final das usinas depende do repasse de preços da gasolina pela Petrobras, que detém 80% do mercado nacional. De acordo com a Abicom (Associação dos Importadores de Combustíveis), a gasolina brasileira registra uma defasagem de 46% em relação à paridade de importação.
Analistas independentes ressaltam que a estatal enfrenta pressão política para segurar os reajustes. “Seria de se esperar que a alta do petróleo levasse a Petrobras a agir, mas há o interesse em manter o apoio do eleitorado em ano de eleições”, avalia o analista Michael McDougall.
Impacto no Mercado Financeiro
Especialistas recomendam cautela aos investidores. A redução da oferta de açúcar pode sustentar os preços da commodity em patamares elevados ao longo de 2026, enquanto a rentabilidade do setor sucroenergético brasileiro ficará atrelada à velocidade com que o mercado interno de combustíveis absorverá as variações do mercado internacional.



